Uma metodologia inovadora desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Potsdam, na Alemanha, permitiu separar material genético vivo do DNA morto, facilitando análises detalhadas de comunidades microbianas no Deserto do Atacama, no Chile. Conhecido como o lugar mais seco do planeta, o Atacama abriga microrganismos em condições extremas. Contudo, entender a função desses organismos em ambientes hostis é desafiador devido à dificuldade em distinguir entre DNA de organismos ativos e restos genéticos.

O estudo, publicado nesta quinta-feira (14) na revista Applied and Environmental Microbiology, descreve a técnica que separa o DNA extracelular (eDNA) do DNA intracelular (iDNA). A abordagem possibilita uma análise mais precisa da vida microbiana em ambientes com baixa biomassa, onde métodos convencionais são insuficientes.
Coleta e Descobertas no Solo do Atacama
Os microbiologistas coletaram amostras de solo do Atacama em uma faixa que vai do litoral até as montanhas dos Andes. A análise revelou microrganismos vivos, sugerindo que esses organismos permanecem ativos mesmo nas áreas mais áridas do deserto. Dirk Wagner, um dos autores do estudo, explica que entender melhor o eDNA e o iDNA permite explorar processos microbianos pioneiros, essenciais para a sucessão de vida em novos ambientes, como terrenos formados após terremotos ou deslizamentos de terra.
“Esses micróbios colonizam solos inóspitos e criam um ambiente inicial que pode sustentar formas de vida posteriores”, comenta Wagner. O processo foi projetado para isolar DNA intacto, eliminando interferências de células dormentes ou mortas, que normalmente comprometem a análise.
Separação Genética e Futuro da Pesquisa
Para obter DNA de alta qualidade, essencial para a análise, os cientistas usaram um processo de filtragem que elimina fragmentos de eDNA inativo do sedimento. Após múltiplos ciclos de lavagem, o DNA foi separado em dois grupos distintos. Aplicada ao solo do Atacama, a técnica revelou a presença dos filos Actinobacteria e Proteobacteria, tanto no eDNA quanto no iDNA. Wagner explica que a similaridade entre os grupos ocorre porque as células vivas continuamente renovam o iDNA à medida que se decompõem.
Os pesquisadores planejam aprofundar a análise com sequenciamento metagenômico do iDNA para entender melhor a parte ativa da comunidade microbiana e expandir a técnica para outros ambientes extremos. “Com o estudo do iDNA, conseguimos capturar um retrato mais fiel dos micróbios em ação, o que abre portas para novos conhecimentos sobre a vida em condições adversas”, conclui Wagner.